Enquanto trabalhadores decidem pela paralisação e a prefeita Janete Aparecida tenta intermediar acordo com reajuste de 4,65%, a Trancid mantém a narrativa de “crise” mesmo após receber R$ 50 milhões em subsídios públicos. Se o sistema é um fardo, por que o consórcio não abre mão da concessão?
A manhã desta sexta-feira, 10 de abril de 2026, ficará marcada como o dia em que a corda, esticada há anos entre a ganância empresarial e a paciência popular, finalmente começou a arrebentar em Divinópolis. Em uma assembleia tensa, realizada sob o peso de seis anos de tarifas congeladas e promessas descumpridas, os trabalhadores do transporte coletivo deram o primeiro passo rumo a uma greve geral, prevista para iniciar na próxima quinta-feira, 16 de abril.
A decisão da primeira assembleia do dia foi clara: paralisação. Com notificações jurídicas previstas para segunda-feira (13/04), o movimento coloca em xeque não apenas a mobilidade urbana, mas a própria sustentabilidade moral do contrato de concessão que liga o Consórcio Transoeste, liderado pela Trancid, ao município de Divinópolis.
O Jogo de Pressão: A “Proposta Zero” como Insulto ao Trabalhador
O estopim para a revolta da categoria foi a postura acintosa das empresas. Em um cenário de inflação acumulada e custo de vida crescente, o consórcio teve a audácia de apresentar uma “proposta zero” de reajuste inicial. É uma estratégia de negociação que beira o desrespeito: empurrar o trabalhador para o abismo da precariedade para, em seguida, chantagear o Poder Público por mais subsídios.
O empresário Fernando Carvalho, presidente do consórcio, justifica a inércia alegando que “não dá para fazer proposta nenhuma” com a tarifa atual. No entanto, essa fala esconde uma realidade paralela. O sindicato dos trabalhadores, que busca ganho real e benefícios mínimos, vê-se diante de um muro de intransigência que não condiz com uma empresa que detém o monopólio de um serviço essencial em uma cidade de quase 250 mil habitantes.
A Intervenção da Prefeita: Olho no Olho!
Surpreendendo a categoria, a prefeita Janete Aparecida (Avante) compareceu pessoalmente à assembleia desta manhã. Em um discurso que misturou apelo emocional e pragmatismo financeiro, Janete tentou conter a fúria dos motoristas e cobradores.
“Tive a coragem de vir aqui e pedir isso para vocês. Eu sei que o meu pedido não agrada a todos, mas o que eu estou pedindo hoje é o que eu dou conta de fazer”.
A proposta da prefeitura para evitar o colapso na quinta-feira é:
- Reajuste de 4,65%: Referente estritamente à reposição da inflação pelo INPC.
- Aumento de R$ 200 mil no subsídio: Elevando o repasse mensal de R$ 2 milhões para R$ 2,2 milhões.
- Negociação em Outubro: Janete foi enfática ao dizer que discussões sobre revisão de tarifa só ocorrerão após o período eleitoral.
Contudo, para o cidadão que depende do ônibus, a pergunta é: onde está o limite desse “esforço” público? A prefeitura já injetou, ao longo dos últimos anos, um montante que ultrapassa a marca dos R$ 50 milhões em subsídios diretos para as empresas. Mesmo com essa fortuna irrigando os cofres do consórcio, a qualidade do serviço prestado é classificada pela população como péssima.
O Retrato do Descaso: Frota Velha, Suja e Atrasada
O argumento do Consórcio Transoeste (Trancid) para justificar o sucateamento é o congelamento da tarifa. Fernando Carvalho admite que a frota, que há cinco anos tinha idade média de dois a três anos, hoje beira os oito anos de uso. Mas essa é apenas a metade da história contada pelas empresas.
O que se vê nas ruas de Divinópolis diariamente é um festival de irregularidades:
- Atrasos Constantes: Linhas inteiras que simplesmente não passam, deixando trabalhadores e estudantes à mercê da sorte em pontos de ônibus desprotegidos.
- Higiene Precária: Reclamações sobre ônibus sujos, com assentos rasgados e janelas travadas são recorrentes nos canais de ouvidoria.
- Manutenção Duvidosa: Veículos que estragam em plena via pública, obrigando passageiros a baldear em meio ao trânsito, tornaram-se cena comum.
Se a empresa recebe milhões de reais em dinheiro público (subsídio) além do que arrecada nas catracas, por que a manutenção básica e o cumprimento de horários (obrigações contratuais básicas) não são cumpridos? A Trancid foca em alegar que opera “no vermelho”, mas os sinais de má gestão são evidentes e quem paga o pato é o passageiro.
O Grande Questionamento: Se Está Ruim, Por Que Não Pedem Para Sair?
Esta é a pergunta de um bilhão de reais que o Consórcio Transoeste se recusa a responder com sinceridade. Se a operação em Divinópolis é tão deficitária, se o subsídio é “insuficiente” e se a tarifa congelada está “quebrando” as empresas, por que a Trancid não protocolou, até hoje, um pedido de rescisão amigável do contrato?
Na lógica de qualquer negócio, se uma atividade só gera prejuízo, o empresário encerra as atividades ou entrega a concessão. No entanto, o que vemos em Divinópolis é um apego ferrenho ao contrato que expira apenas em 2027. A Trancid não quer sair. Ela quer continuar recebendo os repasses mensais da prefeitura enquanto presta o serviço mínimo necessário para não sofrer uma intervenção.
A retórica do “prejuízo” parece ser uma ferramenta de marketing político para forçar o aumento da tarifa e do subsídio. Se realmente estivesse ruim, as empresas abririam mão de participar do novo processo licitatório que Janete Aparecida prometeu iniciar ainda este ano. Mas alguém duvida que a Trancid estará lá, na primeira fila, tentando renovar seu domínio sobre as ruas da cidade?
A “Caixa-Preta” e o Papel dos Vereadores: É Hora da CPI?
Diante desse cenário de opacidade financeira e descontentamento generalizado, a pressão sobre a Câmara Municipal aumenta. Diversos vereadores já levantaram a bandeira de uma CPI do Transporte. É urgente abrir a contabilidade das empresas e entender para onde foram os mais de R$ 50 milhões já repassados.
- Quanto do subsídio foi efetivamente investido em peças e manutenção?
- Qual o lucro líquido real dos sócios do consórcio nos últimos cinco anos?
- Por que as multas por descumprimento de horário não surtem efeito na melhoria do serviço?
A população exige transparência. Não se pode aceitar que uma empresa que trata seus funcionários com desdém (oferecendo reajuste zero) e seus clientes com descaso oferecendo ônibus sucateados e continue sendo a única opção de transporte na cidade.
O Silêncio das Catracas ou o Grito da Mudança?
O desfecho desta crise ocorrerá após a segunda assembleia desta sexta-feira, às 15h. Se os trabalhadores mantiverm a decisão da manhã, Divinópolis enfrentará dias difíceis a partir do dia 16.
A prefeita Janete Aparecida jogou suas cartas: reposição da inflação e um pequeno acréscimo no subsídio. O consórcio, por sua vez, continua com seu choro ensaiado de insuficiência financeira. Mas a verdade é uma só: a Trancid visa o lucro acima do atendimento digno. Se o contrato não serve mais para a empresa, que ela tenha a hombridade de pedir para sair. Divinópolis não pode mais ser refém de uma concessão que entrega migalhas e cobra banquetes em subsídios públicos.
O Portal Centro-Oeste Notícias seguirá acompanhando cada minuto dessa negociação, cobrando das autoridades e das empresas a responsabilidade que o povo divinopolitano e os trabalhadores do transporte merecem.










