Após reverter vantagem da oposição em uma disputa acirrada, petista consolida marca inédita na história do país às vésperas de completar 81 anos; novo governo enfrentará Congresso adverso e desafios na gestão fiscal.
Em uma eleição histórica e marcada por uma virada inédita no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25) presidente da República. Ao derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL), o petista assegurou seu quarto mandato no Palácio do Planalto, consolidando-se como o primeiro presidente da história do Brasil a vencer quatro eleições presidenciais pelo voto popular.
A confirmação matemática do resultado veio pelo sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 21h08, quando 97% das urnas já estavam apuradas. Naquele momento, Lula alcançava 51,74% dos votos válidos, contra 48,26% de Flávio Bolsonaro.
A vitória ocorre no momento em que o presidente se aproxima dos seus 81 anos, marco que será comemorado na próxima terça-feira, 27 de outubro. A conquista consolida a recuperação política do candidato, que havia terminado a primeira etapa do pleito atrás do adversário, quando Flávio liderou o primeiro turno com 47% dos votos válidos contra 45% do petista.
Estrutura da Virada e Articulação na Reta Final
Além disso, a reverter a desvantagem do primeiro turno demandou intensa mobilização da militância e das redes sociais do partido. Portanto, a estratégia digital no segundo turno contou com a atuação do canal “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), plataforma que alcançou mais de 10 milhões de inscritos.
Paralelamente, a etapa final do terceiro mandato e a campanha foram acompanhadas por anúncios e medidas de apelo popular, como:
- O lançamento do Programa Prospera MEI, voltado para microempreendedores individuais;
- O anúncio do reajuste do Bolsa Família;
- A articulação e promulgação no Congresso da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabeleceu o fim da escala de trabalho 6×1 (implantando a jornada de 5 dias de trabalho por 2 de descanso);
- A promulgação da PEC que garantiu aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias.
Essas medidas, adotadas às vésperas da votação, foram alvo de críticas por parte da oposição, que as classificou como eleitoreiras. Portanto, durante as solenidades no Legislativo, Lula esteve acompanhado do presidente da Câmara, Hugo Motta, e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre — com quem manteve episódios de tensão ao longo do mandato, mas reaproximou-se no período eleitoral.
Balanço do 3º Mandato e Desafios Econômicos
Além disso, ao longo do terceiro mandato (2023-2026), a gestão petista reformulou a esplanada dos ministérios, ampliando a estrutura para 38 pastas com a criação de ministérios como Igualdade Racial e Povos Indígenas.
Medidas Econômicas e Sociais
Além disso, no campo das entregas, o governo aprovou a reforma tributária, ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda e registrou a saída do país do Mapa da Fome. No fim da gestão, Lula promoveu recuos táticos relevantes:
- Taxa das Blusinhas: Sancionou o fim do Imposto de Importação de 20% para compras internacionais de até US$ 50;
- Apostas Virtuais: Determinou a proibição total das apostas de quota fixa (bets) e cassinos online no país.
Crises e Desafios Internos
Portanto, a gestão também enfrentou percalços políticos e administrativos. Além disso, o governo lidou com o escândalo das fraudes no INSS decorrentes de descontos indevidos em aposentadorias entre 2019 e 2024, episódio que resultou na saída de Carlos Lupi da Previdência Social.
Além disso, no Judiciário, o ministro André Mendonça (STF) autorizou investigações sobre suposto tráfico de influência envolvendo Fábio Luís da Silva (Lulinha) no Ministério da Saúde e na Dataprev. Portanto, na articulação política, Jaques Wagner (PT-BA) deixou a liderança do governo no Senado após ser citado na Operação Compliance Zero da Polícia Federal, que apura fraudes ligadas ao Banco Master.
No cenário internacional, o governo negociou os impactos de conflitos no Oriente Médio e gerenciou atritos diplomáticos e tarifários com os Estados Unidos. Portanto, ara o quarto mandato, o Executivo terá de equacionar o aumento dos gastos públicos e contornar a resistência de um Congresso Nacional com forte presença de oposição.
A Trajetória: Do ABC à Quarta Eleição
Nascido em 27 de outubro de 1945 em Garanhuns (PE), filho de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello (Dona Lindu), Lula migrou para o Estado de São Paulo em 1952 em um caminhão pau de arara. Trabalhou como vendedor ambulante, engraxate e office boy até ingressar na indústria aos 14 anos e formar-se torneiro mecânico pelo Senai. Aos 17, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho.
Na vida pessoal, enfrentou a perda da primeira esposa, Maria de Lourdes, em 1971. Em 1974, casou-se com Marisa Letícia, com quem esteve por mais de quatro décadas até o falecimento dela em 2017. É pai de Lurian, Marcos Cláudio (adotado), Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio. Em maio de 2022, casou-se com a socióloga Rosângela da Silva, a Janja.
Linha do Tempo Política e Histórico Eleitoral
- 1970–1980: Liderou o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e participou das greves gerais da categoria. Ficou preso por 31 dias em 1980 com base na Lei de Segurança Nacional da ditadura militar.
- 1980: Fundou o Partido dos Trabalhadores (PT) e, em 1983, participou da criação da CUT e do movimento Diretas Já.
- 1986: Eleito deputado federal constituinte por São Paulo.
- 1989, 1994 e 1998: Disputou a Presidência, sendo derrotado por Fernando Collor (1989) e Fernando Henrique Cardoso (1994 e 1998).
- 2002 e 2006: Eleito (com 52,7 milhões de votos) e reeleito (58,2 milhões de votos) presidente. Implementou programas como Fome Zero, Bolsa Família, ProUni, Minha Casa Minha Vida e PAC. Encerrou o mandato em 2010 com 87% de aprovação.
- 2005: Enfrentou a crise do Mensalão, esquema de compra de apoio parlamentar denunçado por Roberto Jefferson que derrubou o ministro José Dirceu.
- 2017–2021: Foi condenado na Operação Lava Jato pelo juiz Sergio Moro no caso do triplex do Guarujá. Preso em abril de 2018, permaneceu 580 dias na sede da Polícia Federal em Curitiba. Teve a candidatura barrada em 2018. Deixou a prisão em 2019 após mudança de entendimento do STF sobre a prisão em segunda instância. Em 2021, o ministro Edson Fachin anulou suas condenações, devolvendo seus direitos políticos.
- 2022: Venceu Jair Bolsonaro no segundo turno com 60,3 milhões de votos, assumindo o 3º mandato em 2023.
Ao longo do período recente, o presidente superou um câncer na laringe (2011), passou por cirurgia no quadril (2023).
Além disso, tratou uma lesão na cabeça após queda, labirintite (2025) e a retirada de uma lesão no couro cabeludo seguida de radioterapia (2026).
Com o resultado deste domingo confirmado pelo TSE, a diplomação e a nova posse de Luiz Inácio Lula da Silva ocorrem no início de 2027.









