Em desabafo gravado nas redes sociais, moradora de distrito de Carmo do Cajuru questiona presença de trabalhadores nordestinos na região. Agressão verbal configura crime de racismo e xenofobia, e gera indignação.
Um vídeo gravado por uma empresária, moradora do distrito de São José dos Salgados, em Carmo do Cajuru, desencadeou uma forte onda de repúdio e indignação. Em um extenso desabafo publicado após o resultado do pleito presidencial, a moradora atacou abertamente trabalhadores e famílias nordestinas que vivem e trabalham na região.
Portanto, questionando o direito de migração dentro do próprio país e recorrendo a preconceitos regionais. Contudo, além da gravidade jurídica das declarações, o episódio escancara uma profunda hipocrisia.
Além disso, a própria empresária que atacou os nordestinos por terem deixado seus estados de origem para tentar a vida no distrito também é migrante. Ela deixou sua cidade natal, Belo Horizonte, para empreender e morar em São José dos Salgados.
Portanto, no vídeo, a empresária questionou ostensivamente a presença dos nordestinos e pernambucanos na localidade.
“O que tem de nordestino, pernambucano aqui, e que fizeram a diferença nas urnas aqui, elegendo o Lula, vocês não têm noção. Se o Lula é tão bom, por que você tem que sair da sua terra? Por que você tem que sair do seu meio, da sua família, pra ir vencer a vida em outro estado, em uma cidade tão pequena, e que você não conhece ninguém, por quê? […] Aqui em São José de Salgado tem mais pernambucano do que cajuruense. E por que você sai da sua terra? Tá fazendo o que aqui?”
Atingidos Reagem: “Pago Meus Impostos e Trabalho Honestamente”
As ofensas atingiram diretamente a dignidade de dezenas de trabalhadores que compõem a força de trabalho e a economia de Carmo do Cajuru e do distrito de São José dos Salgados.
Uma trabalhadora nordestina, que reside no distrito desde 2016, relatou ao Portal Centro-Oeste Notícias a dor e o constrangimento provocados pelas falas da empresária.
“Moro em São José dos Salgados desde 2016. Trabalho todos os dias, pago meus impostos, consumo no comércio local e ajudo a construir a economia dessa terra. Ouvir uma pessoa perguntar ‘o que estamos fazendo aqui’, com tanto desprezo, foi um golpe doloroso. O direito de trabalhar e buscar um futuro melhor é de todos os brasileiros, independente de onde nasceram.”
O Aspecto Jurídico: Xenofobia é Crime de Racismo no Brasil
A fala da empresária ultrapassa qualquer limite de manifestação política e adentra a esfera criminal. O ordenamento jurídico brasileiro é claro.
O preconceito e a discriminação por procedência nacional ou regional configuram crime de xenofobia, equiparado ao crime de racismo pela Lei nº 7.716/1989 e reforçado pela Lei nº 14.532/2023.
Tanto o Superior Tribunal de Justiça (STJ) quanto o Supremo Tribunal Federal (STF) possuem jurisprudência consolidada de que ofensas direcionadas à coletividade de nordestinos, atribuindo-lhes estigmas pejorativos ou questionando seu direito de circulação e residência, caracterizam crime inafiançável e imprescritível, com pena de 2 a 5 anos de reclusão, além de multa.
Desmonte Factual das Demais Afirmações do Vídeo
A reportagem também checou e rebateu as demais ilações e acusações veiculadas pela empresária no vídeo:
- Ataque sem Provas às Urnas: A empresária afirma que a eleição foi “literalmente roubada”. A declaração atenta contra a integridade do sistema eleitoral brasileiro, que é auditado por órgãos independentes, Forças Armadas, OAB e observadores internacionais, sem que nenhuma evidência de fraude jamais tenha sido comprovada.
- Responsabilidade Sanitária na Pandemia: Ao tentar desvincular o governo federal (gestão Bolsonaro) das mortes na Covid-19, a empresária ignora relatórios oficiais e investigações do Congresso e órgãos de controle que documentaram o atraso na compra de vacinas, o incentivo ao uso de medicamentos ineficazes e o boicote a medidas preventivas que custaram milhares de vidas brasileiras.
- Generalização da Educação Pública: A afirmação de que “alunos passam de ano sem saber nada” desqualifica o trabalho de milhares de educadores e ignora o funcionamento das diretrizes pedagógicas e avaliações nacionais de desempenho do Ministério da Educação.
- Ataques a Programas Sociais: O vídeo associa beneficiários de auxílios a pessoas que “querem viver de roubo ou não querem trabalhar”. Dados econômicos e dados do Ipea mostram que a grande maioria dos beneficiários de programas sociais trabalha na informalidade e que os recursos injetados pelo Bolsa Família movimentam o comércio dos próprios pequenos municípios — beneficiando, inclusive, os comerciantes locais.
O caso segue repercutindo na comunidade de São José dos Salgados e Carmo do Cajuru, onde moradores cobram a atuação das autoridades.









