Tradicional evento que percorre as ruas de Santo Antônio dos Campos (Ermida) às 5h da manhã agora conta com proteção legal e integra o calendário oficial do município.
Há sons que não pertencem apenas ao ar; pertencem ao tempo. Em Santo Antônio dos Campos, a nossa querida Ermida, o tempo tem um jeito muito particular de se manifestar. Ele não passa apenas nos ponteiros do relógio da matriz; ele ecoa, treme o chão e acorda a alma antes mesmo do sol pensar em apontar no horizonte. Agora, esse som (feito de buzinas, cânticos e fogos) não é mais apenas uma tradição local. Ele é, oficialmente, Patrimônio Cultural Imaterial de Divinópolis.
A oficialização, vinda através do Projeto de Lei nº CM 226/2025, proposto pelos vereadores Walmir Ribeiro (PL) e Breno Júnior (Novo), entrou em vigor em março de 2026. Mas, para o povo de Ermida, a lei apenas colocou moldura em um quadro que já estava pintado no coração da comunidade há décadas.
O Ritual das Cinco da Manhã
Imagine o cenário: é 12 de junho. O frio da madrugada mineira aperta as frestas das janelas. O silêncio do distrito é absoluto, interrompido apenas pelo estalar ocasional de algum galho seco. Então, exatamente às cinco horas da manhã, o silêncio é solenemente assassinado pela alegria.
Não é um barulho qualquer. É a Alvorada de Santo Antônio e São Sebastião. Uma carreata de carros e motos começa a serpentear pelas ruas estreitas de Ermida. As buzinas não pedem passagem; elas pedem oração. Os fogos de artifício riscam o céu ainda escuro, anunciando que os padroeiros estão sendo celebrados. É um ritual que, para quem vê de fora, pode parecer apenas uma festa barulhenta, mas para quem vive ali, é o fortalecimento de um cordão umbilical que liga o homem ao sagrado.
A Fé que se Faz em Comunidade
O conceito de “patrimônio imaterial” pode parecer abstrato para alguns, mas em Ermida ele tem cheiro de café passado e pão de queijo quente. Como bem lembrou o vereador Walmir Ribeiro, um dos autores da lei, a Alvorada não termina na dispersão dos carros. Ela se transforma em comunhão.
“Ao final de cada dia de festa, realiza-se um café comunitário que reúne mais de 400 pessoas em diferentes residências. Isso promove a partilha e fortalece os laços de amizade e solidariedade”, explicou Walmir.
É neste café, servido em mesas longas e corações abertos, que a tradição se mantém viva. É ali que o neto ouve do avô sobre as alvoradas de antigamente, e que o vizinho que passou o ano sem falar com o outro, senta-se à mesma mesa para celebrar a vida. A Alvorada de Ermida é, acima de tudo, um dispositivo de paz social.
O Reconhecimento da Identidade
Para Breno Júnior, outro proponente do projeto, a motivação nasceu do respeito a algo que é maior que a própria política: a identidade de um povo. “Reconhecemos a importância da Alvorada não só como um evento, mas como uma manifestação de fé muito forte. É um momento que envolve famílias inteiras”, afirmou o vereador.
Com a nova legislação, a festa passa a integrar o calendário oficial de Divinópolis. Isso significa que, a partir de agora, o poder público tem o dever de proteger, promover e divulgar esse saberes. A Alvorada ganha “blindagem” contra o esquecimento. Possibilita que políticas de incentivo ajudem na organização e no crescimento do evento, garantindo que a infraestrutura acompanhe a grandiosidade da fé local.
A Imortalidade do que não se Toca
Um patrimônio imaterial não é algo físico, como uma estátua ou um prédio histórico. Ele vive na memória e na ação. É algo que não se pode tocar com as mãos, mas que se sente com o peito todo.
Ao oficializar a Alvorada de Santo Antônio e São Sebastião, Divinópolis olha para Ermida e reconhece que ali reside uma parte essencial da sua alma. Reconhece que o “barulho” das buzinas às cinco da manhã é, na verdade, o grito de uma comunidade que se recusa a perder suas raízes em um mundo cada vez mais desconectado.
Portanto, quando o dia 12 de junho chegar este ano, os moradores de Ermida acordarão com o mesmo som de sempre. Mas haverá algo novo no ar: a certeza de que a sua tradição agora é eterna. O som do formão que talha a história de Divinópolis acaba de esculpir mais um capítulo, e ele tem a força de uma carreata que só para quando a fé está devidamente celebrada.










