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Editorial: Adeus e perdão, pequena Helena

Editorial Adeus e perdão, pequena Helena

Após o crime brutal que vitimou uma bebê, Helena, de 10 meses, em Fortaleza, um desabafo sobre a falência da nossa proteção, a covardia da sociedade e a dor de quem olha para os próprios filhos e se pergunta: até quando?

Hoje, enquanto tento organizar as palavras, as teclas do meu teclado parecem pesar toneladas. Como jornalista, fui treinado para manter o distanciamento, para observar os fatos com a frieza necessária à apuração.

Mas, hoje, essa máscara caiu por terra. Hoje, eu não consigo escrever como um profissional de imprensa. Eu escrevo como um homem que tem, em casa, uma menina de quatro anos, um pedaço de mim que corre, que ri, que demanda proteção, que me olha com a pureza que só as crianças possuem.

E é por causa dela, olhando para o rosto da minha filha, que eu tento, desesperadamente, compreender o incompreensível: a partida prematura e brutal da pequena Helena.

Ela ainda não sabia o que era a maldade

Helena tinha apenas dez meses. Dez meses de vida. Ela ainda não sabia o que era a maldade. Ela ainda não entendia o que era a violência. Para ela, o mundo deveria ser apenas o som da voz da mãe, o toque suave de um abraço, o calor do leite e o sono tranquilo de um berço.

Ela era, na definição mais pura da palavra, uma alma santa. E, enquanto escrevo, uma lágrima insiste em borrar minha visão, não apenas pela dor da perda, mas pela impotência que me consome.

Helena, minha pequena, tenho a absoluta certeza de que, neste exato momento, você não sente mais dor. Você está guardada no colo do puro Amor de Deus, onde o mal não tem acesso. Pois disse Jesus:

“Deixem vir a mim as crianças, porque o Reino dos Céus pertence aos que são semelhantes a elas.” Você está a salvo. Você está em casa, no abraço daquele que a criou e que, ao contrário de nós, seres falhos e caídos, nunca permitiria que o mal lhe tocasse um fio de cabelo.

Perdão

Mas, Helena, eu preciso lhe pedir perdão. Eu preciso pedir perdão a você e a tantas outras crianças que foram sacrificadas no altar da nossa negligência.

Como homem e como pai, sinto uma vergonha que queima, uma náusea que não passa. Nós somos, hoje, uma nação de covardes. Nós assistimos a tudo sentados em nossos confortos, transformando a tragédia em manchete, a indignação em postagem, enquanto o mal, esse monstro que caminha entre nós, se sente cada vez mais fortalecido, cada vez mais seguro.

Nossa justiça falhou miseravelmente. Nossa segurança pública é uma colcha de retalhos desfeita. Nossos governantes, tão prontos para discursar, são os primeiros a falhar na proteção básica dos inocentes. Os homens da lei, aqueles que ainda carregam o ideal de fazer o que é certo, parecem algemados por um sistema que protege o criminoso e despreza a vítima.

O mal perdeu o medo. O mal se sente à vontade para agir, enquanto nós, a sociedade, estamos acuados, trancados atrás de muros, assistindo a tudo com um nó na garganta que nunca se desfaz.

O preço da nossa covardia

Quem paga o preço da nossa covardia? São seres como você, Helena. São crianças que deveriam ser protegidas por nossos braços, braços que foram desenhados para acolher, proteger e servir e que, em vez disso, foram usados como instrumentos de dor, de abusos, de um crime tão vil que a própria língua hesita em nomear.

Como pudemos permitir isso? Como pudemos deixar que homens desprezíveis, desprovidos de qualquer centelha de humanidade, roubassem o futuro de uma criança de dez meses?

Peço perdão a você, Helena. Perdão por não sermos vigilantes o suficiente. Perdão por estarmos perdidos em nossos próprios medos, enquanto o horror acontece bem ao lado, no quarto ao lado, na casa ao lado. Eles estão ficando mais fortes, mais audazes, porque nós nos acovardamos.

Nós nos ajoelhamos diante da indiferença. Aceitamos tudo, indignados, mas uma indignação que não transborda para a ação, uma indignação que se limita ao brilho da tela de um celular. Eu mesmo, escrevendo isso agora, sinto um medo paralisante. Sinto insegurança até de publicar estas palavras, de gritar contra o absurdo.

Eu não consigo ter misericórdia

E é aqui que meu coração cristão entra em conflito. Eu entendo, intelectualmente, o conceito de misericórdia. Mas, hoje, diante do seu caso, eu confesso: eu não consigo ter misericórdia. Mesmo sendo um homem de fé, mesmo buscando o perdão como pilar da minha vida, não encontro, nem nas frestas da minha alma, qualquer resquício de compaixão por quem destruiu a sua existência.

Que Deus julgue, mas eu, como pai, só sinto o desejo de justiça uma justiça que, para você, chegou tarde demais.

Esteja em paz, nos braços do Altíssimo, Helena. Que a sua luz continue a brilhar onde nós, seres de sombra e falha, não conseguimos iluminar. Descanse no colo de Deus. Pois aqui, entre nós, os maus parecem ter domado os bons. E o peso dessa derrota é a vergonha mais profunda que um pai pode sentir.

Amém.

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