O impasse do transporte em Divinópolis: se a situação está má, por que não pedem para sair? A verdade por trás do caos na Trancid.
Enquanto o Consórcio Transoeste alega “inviabilidade financeira”, a população padece com frota sucateada e atrasos crônicos; vereadores já sinalizam para a necessidade de uma CPI para abrir a “caixa-preta” das empresas que, mesmo em crise, recusam-se a largar o contrato.
A cidade de Divinópolis amanheceu, mais uma vez, sob a sombra pesada e asfixiante de uma greve iminente no transporte coletivo.
No entanto, o que se descortina diante dos olhos do cidadão não é apenas uma mera disputa salarial entre patrões e empregados, mas sim o colapso moral e operacional de um modelo de negócio que parece ter se transformado em um parasita da mobilidade urbana.
O impasse nas negociações, marcado por uma acintosa “proposta zero” por parte das empresas, expõe uma ferida purulenta que a administração municipal e o consórcio tentam mascarar com planilhas convenientes e discursos de vitimização.
Portanto, a pergunta que ecoa em cada ponto de ônibus lotado, em cada veículo que quebra no meio da via e em cada atraso que custa o emprego do trabalhador é uma só.
Além disso, se o sistema é tão deficitário e inviável como pregam os seus diretores, por que o Consórcio Transoeste e a Trancid não pedem a rescisão imediata do contrato e deixam o caminho livre para quem realmente queira prestar um serviço digno?
A Retórica do “Prejuízo” e a Realidade do Lucro a Qualquer Custo
O discurso do presidente do Consórcio Transoeste e da Trancid, Fernando Carvalho, soa como um disco riscado que a população já não suporta mais ouvir. Ele sustenta que o modelo atual é uma armadilha financeira, onde a tarifa e o subsídio municipal não seriam suficientes para cobrir os custos. Entretanto, essa alegação de “falta de condições” contrasta violentamente com a resistência férrea da empresa em abandonar a operação.
Ora, em qualquer setor da economia de mercado, se um contrato é persistentemente desfavorável, a empresa busca a sua dissolução. No caso da Trancid, o que vemos é o oposto.
Um apego quase desesperado a uma concessão que, em teoria, só lhes traria dor de cabeça. O que transparece para a opinião pública é que o que está em jogo não é a sobrevivência do transporte.
Mas a manutenção de uma margem de lucro que ignora solenemente a dignidade do passageiro e os direitos básicos dos trabalhadores.
Enquanto isso, o presidente do Sindicato dos Rodoviários, Erivaldo Adami, traz à luz a face mais cruel desse travamento proposital: a negligência com o trabalhador.
“A gente fica preocupado. A categoria esperando aí que a gente levasse uma proposta para a assembleia que está agendada para o próximo dia 10 e, lamentavelmente, proposta zero. Nem em NPC, que a gente já tinha sinalizado que nem em NPC a gente concorda. A gente precisa, além de NPC, ganho real. Isso fica muito frustrado e espero que vai ter um desfecho muito ruim. Eu acho que vai ser inevitável uma paralisação”.
A Frota do Passado: Onde Foi Parar o Dinheiro do Subsídio?
Um dos pontos mais escandalosos da fala do consórcio diz respeito ao estado deplorável dos veículos que circulam em Divinópolis.
O próprio Fernando Carvalho admite que a frota envelheceu drasticamente. Se há cinco anos o município orgulhava-se de ter veículos novos e com acessibilidade.
Porem, hoje a média de idade saltou para oito anos, com carros visivelmente desgastados e inseguros.
“Nós mostramos para ela [Janete Aparecida] que nós, há cinco anos atrás, nós tínhamos uma frota com dois anos e meio, três anos, toda ela já com acesso ao deficiente, e hoje nós temos uma frota média de oito anos”.
Além disso, essa confissão levanta um questionamento ético e administrativo profundo, se o sistema é alimentado por repasses milionários da Prefeitura (o chamado subsídio público), para onde exatamente esse dinheiro está indo?
Se o recurso que deveria garantir a renovação da frota e a manutenção dos veículos não é aplicado na ponta.
Portanto, a conclusão lógica é de que ele está sendo desviado para garantir o balanço financeiro das empresas, sacrificando a segurança do usuário e a regularidade das viagens.
A população paga duas vezes, na catraca, com uma tarifa alta para o padrão de serviço oferecido, e através dos impostos que alimentam o subsídio. Em troca, recebe ônibus atrasados, sujos e que não cumprem o que está determinado no contrato de concessão.
A “Caixa-Preta” e o Grito por uma CPI
Diante desse cenário de obscurantismo e descaso, o clamor por uma intervenção mais rigorosa do Poder Legislativo ganha força.
Vereadores da cidade já começaram a se mobilizar, propondo a abertura de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Trancid. O objetivo é único e urgente: abrir a “caixa-preta” do consórcio e entender a real aplicação dos recursos públicos.
Além disso, é preciso auditar cada centavo repassado, conferir a quilometragem rodada versus a quilometragem paga, e analisar por que o descumprimento sistemático de horários tornou-se a regra, e não a exceção.
Portanto, o argumento das empresas de que o subsídio é insuficiente, alegando receber R$ 2 milhões quando “deveria” receber R$ 2,57 milhões, não pode ser aceito. Se a empresa não cumpre sua parte do contrato, por que o município deveria arcar com valores ainda maiores?
O Limiar da Paciência Popular
Além disso, a assembleia dos rodoviários marcada para esta sexta-feira é apenas o estopim de uma bomba-relógio que o Consórcio Transoeste ajudou a fabricar. A tática de empurrar o problema com a barriga, propondo adiamentos inúteis de 45 dias, é uma afronta.
Portanto, o que a Trancid visa, ao que tudo indica, é puramente o lucro, tratando o transporte coletivo não como um direito social essencial, mas como um ativo financeiro a ser espremido até a última gota de óleo diesel.
Além disso, se o sistema está em colapso, se não há lucro, se a operação é um fardo, o recado da população é claro, entreguem as chaves e peçam para sair. Divinópolis não pode mais ser refém de quem não tem compromisso com o bem-estar do povo.
Portanto, enquanto a transparência não vier e o contrato não for revisado ou rompido, a cada novo impasse, a convicção de que o sistema é mantido por conveniência empresarial.
Além disso, não por necessidade pública só se fortalece. Chegou a hora de dar um basta no privilégio dos barões do transporte e devolver a dignidade a quem realmente move a cidade.










