O ciclo eterno da lama: Como a inércia do planejamento urbano transformou a chuva em sentença de morte e superou cicatrizes históricas de Minas Gerais.
Minas Gerais é um estado talhado pelo ferro, mas são as águas que, ciclicamente, redesenham seu mapa de dor. Nesta quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026, a Zona da Mata atingiu uma marca fúnebre que muitos esperavam nunca mais testemunhar.
Com 38 mortes confirmadas entre Juiz de Fora e Ubá, o desastre atual ultrapassou oficialmente a tragédia da Vila Barraginha, ocorrida em Contagem há 34 anos.
Enquanto 31 pessoas seguem desaparecidas sob toneladas de argila e escombros, a pergunta que ecoa nos vales mineiros é a mesma desde 1979: por que ainda morremos da mesma forma?
A Anatomia do Desastre: O Barro que Não Esquece
O solo da Zona da Mata, castigado por um volume pluviométrico que desafia as médias históricas, comportou-se de maneira idêntica ao terreno de Contagem em 18 de março de 1992.
Naquela época, a Vila Barraginha, assentada sobre um antigo depósito de lixo e solo argiloso, viu um aterro de 15 metros de altura desabar sobre 150 barracos. Trinta e seis vidas foram ceifadas sob o peso de um planejamento urbano inexistente.
Hoje, em 2026, a instabilidade das encostas em Juiz de Fora revela a mesma fragilidade geológica. Certamente, o excesso de chuva prejudica a coesão do solo, transformando encostas habitadas em gatilhos de destruição. Em Juiz de Fora, 32 mortes foram registradas, enquanto Ubá contabiliza seis óbitos.
O cenário de guerra, com bombeiros e voluntários correndo contra o relógio, é uma reprise cruel de um roteiro que Minas Gerais parece condenada a encenar a cada verão.
A Voz da Experiência: O Relato de Eduardo Costa
Para quem viveu a cobertura jornalística de 1992, o momento atual não é apenas uma estatística, mas um gatilho de memórias traumáticas. Eduardo Costa, jornalista e apresentador da Rádio Itatiaia, recorda com nitidez o cheiro da destruição na Vila Barraginha. Naquela madrugada de março, o rádio foi o primeiro a anunciar que o bairro Industrial havia sumido sob a lama.
“Fiquei doze dias acompanhando a retirada dos corpos. Era um negócio impressionante, chocante”, relembra Eduardo. Ele narra episódios que misturam a fadiga extrema da cobertura com a tensão dos resgates: “A imprensa ficava à distância e, às vezes, removiam um porco e a gente lá de cima achava que era o corpo de mais uma pessoa”.
Essa confusão entre a vida animal e a humana, em meio aos escombros, ilustra a desumanização que o desastre impõe às vítimas.
O Ciclo das Águas: De 1979 a 2020
A tragédia atual não é um evento isolado, mas o capítulo mais recente de uma cronologia de devastação. Eduardo Costa também esteve presente nas enchentes de 1979, consideradas pelo MetSul como as mais trágicas da história do estado. Naquela ocasião, foram 35 dias de chuva ininterrupta e 246 mortos. Cidades como Aimorés, no Vale do Rio Doce, ficaram submersas.
Eduardo descreve a desolação de ver apenas os tetos dos vagões de trem acima da linha d’água. A hostilidade dos moradores, que perguntavam se a comitiva trazia água ou vinha “consumir o que já não temos”, revela a face política e social do abandono que sucede a inundação.
O jornalista conclui sua memória com o relato de uma noite inteira de trabalho sobre o transbordamento do ribeirão Arrudas, em Belo Horizonte, reforçando que a capital mineira nunca esteve imune ao poder das águas.
A Recorrência do Erro: Décadas de Luto
Ao analisarmos os dados históricos, percebe-se que Minas Gerais vive um estado de alerta permanente. Em janeiro de 1997, 83 pessoas morreram em apenas 30 dias. Em 2003, a Região Metropolitana de Belo Horizonte viu 25 pessoas perderem a vida. O verão de 2020, por sua vez, registrou o janeiro mais chuvoso em 110 anos, com 56 mortes e 90 mil desalojados.
O que une todos esses episódios, além do clima, é a permanência do risco. A Vila Barraginha, apesar da tragédia de 1992, continua resistindo no mesmo local, enfrentando as mesmas ameaças de deslizamento décadas depois. Por consequência, a vulnerabilidade social empurra a população para as áreas de descarte, para as encostas de argila e para as margens de rios que, em algum momento, reclamarão seu leito.
2026: A Urgência do Presente
Atualmente, o Corpo de Bombeiros cita uma “corrida contra o tempo”. Em Juiz de Fora, a prioridade localizar os 31 desaparecidos antes que novas frentes frias atinjam a região. Entretanto, a logística é dificultada pelo terreno instável e pelo trauma acumulado. A tragédia da Zona da Mata em 2026 não é apenas um número superior ao de 1992; é a confirmação de que a engenharia e as políticas de habitação em Minas Gerais não foram capazes de superar a força da natureza e o descaso histórico.
Em suma, enquanto os corpos são removidos e as famílias choram seus mortos em Ubá e Juiz de Fora, o estado de Minas Gerais se vê, mais uma vez, diante de um espelho de lama. A história de Eduardo Costa, que atravessa quatro décadas de coberturas, serve como um aviso: a água passará, mas a lama da negligência continuará a soterrar o futuro se o planejamento urbano não se tornar, finalmente, uma prioridade de vida ou morte.
Comparativo Histórico de Desastres Pluviais em Minas
| Ano | Local Principal | Mortes Confirmadas | Contexto |
| 1979 | Aimorés / Vale do Rio Doce | 246 | 35 dias de chuva contínua |
| 1992 | Vila Barraginha (Contagem) | 36 | Deslizamento em antigo lixão |
| 2020 | Belo Horizonte / MG | 56 | Janeiro mais chuvoso em 110 anos |
| 2026 | Zona da Mata (JF e Ubá) | 38+ | Supera tragédia da Barraginha |










